É no exemplo que a educação se materializa e o amor se fortalece

Exemplo

Tive reunião na escolinha da B esta semana. Entre mil e um temas de agenda e relatos sobre os desenvolvimentos dos meninos em ambiente escolar, a educadora abordou também os momentos em que ficavam mais agitados e, num aparte, deu conta que numa dessas alturas a B (5 anos) lhe terá dito:
– Precisam de meditar para acalmar.
A sugestão terá sido bem acolhida e ao que parece, de quando em vez, agora lá se sentam todos em meditação conforme sugerido pela coleguinha.

Saber desta história alegrou-me e surpreendeu-me. É que em casa, quando medito junto dela, normalmente a B não demonstra grande interesse pela prática. Já lhe expliquei o que faço quando me sento naquela posição e fecho os olhos, e os benefícios e porque também seria bom ela fazer, mas nunca foi o suficiente para verdadeiramente a motivar. Até costumo perguntar-lhe se se quer juntar a mim, mas na generalidade das vezes diz que não, que prefere ficar só a ver.
Face ao que me parecia ser uma atitude de um certo descaso em relação à meditação, não esperava que ela tivesse a reacção que a educadora relatou e que, de certa forma, impulsionasse para que a prática se tornasse frequente na sala de aula.

O mais inspirador para mim deste episódio é aperceber-me de como o exemplo que passamos aos nossos filhos é na prática apreendido e reproduzido por eles, sem que muitas vezes o manifestem ou nos dêem a entender. O facto é que curiosamente ela nunca abordou em casa esta situação da meditação em sala de aula, e no entanto soube autonomamente fazer uso do exemplo que lhe dei.

A parentalidade é um dos temas quentes nos dias de hoje. Há muitas correntes que se defendem ou renegam, das quais nos aproximamos ou afastamos. Há também muitos pais que hoje se sentem ‘sem rei nem roque’ na tarefa de educar as suas crianças. Hoje, muitos de nós, não temos as redes de apoio de antigamente, nomeadamente nas grandes cidades. A família está longe e com os vizinhos quase não se convive, só se trocam breves palavras de circunstância. As pressões sociais e económicas são muitas e o tempo escasso para responder a tantas solicitações. Asfixiamos lentamente em exigências, cobranças, contas, deveres, compromissos inadiáveis…

Passamos horas sem fim fora de casa, longe dos nossos e nem as tecnologias nos valem para realmente nos aproximarmos. Temos sorte quando há a possibilidade de tomar o pequeno-almoço em família e à noite estarmos todos juntos para jantar à mesma mesa. Pais há que durante a semana só veem os filhos de fugida ou de soslaio quando já dormem. É muitas vezes o alto preço a pagar para sustentar a família.

Mas o tempo urge e eles crescem e nesse crescimento desenraizam-se de nós e dos sonhos que tinhamos para eles. E os pais assistem, quando não estão intensamente alienados ou distraídos, impotentes e incrédulos a esta cruel emancipação prematura, que nos rouba a oportunidade de lhes passar o melhor de nós – os pilares para uma vida presente, saudável, plena e feliz.

Se quisesse tapar o sol com a peneira e apenas lamentar a má sorte de sermos pais nestes tempos modernos, diria que a culpa é desta sociedade, dos governos e desgovernos sem políticas pro-natalidade e pró-família, dos empregadores apenas atentos ao lucro das suas empresas e acionistas, da falta de condições, do êxodo, do diabo a quatro… Mas temos de ser claros. A culpa é nossa, pais, que desnorteados, tocados a vara qual gado, não nos damos tempo para concretizar o que fazemos das nossas vidas e, consequentemente, da vida daqueles a quem mais queremos bem. Enfiamos a cabeça na areia e dizemos que amanhã será o dia, o nosso tempo virá e o deles também. Levamos os dias a correr e a correr com eles (literal e figurativamente falando). Eles fazem birras e nós sobrepomos as nossas. Eles gritam e nós gritamos mais altos pelo bem da nossa autoridade. Eles amuam e nós reviramos os olhos, incapazes de penetrar nos seus corações. Eles esperneiam e agarram-nos as pernas e nós maldizemos a vida e amarguramos os seus olhares pesarosos, angustiados por um abraço demorado para o qual nunca parecemos ter disponibilidade.

As responsabilidades não se varrem para debaixo do tapete e a educação dos nossos filhos e o amor que lhes devemos – não em palavras mas em actos – não pode ser empurrada para as calendas de um tempo indefinido na vã esperança de ainda lá chegarmos a tempo de lhes dar aquilo a que não nos prestámos enquanto era possível. Todos sabemos que o amanhã nunca chega mas é para lá que empurramos os nossos sonhos sem ousarmos começar hoje a construir o futuro que desejamos.

E os nossos filhos, ficam sem raízes, e aí percebemos que na verdade as raízes que lhes demos eram tão frágeis e doentes, porque, a bem dizer, até as nossas deixámos apodrecer num recanto qualquer do tempo do qual já nem sequer nos lembramos, ou procuramos esquecer para que não nos magoe a lembrança.

E no meio desta fragmentação de pais e indivíduos, não conseguimos ser amor por inteiro e dar esse amor incondicionalmente aos nossos espelhado naquilo que somos e fazemos. Somos uma réplica daquilo que desprezamos na sociedade e as nossas crianças são orfãs de pais vivos mas que todas as noites lhes dão um beijinho na ingénua esperança que venham a ser felizes, guiados por aquela mesma felicidade que nos escorre por entre os dedos todos os dias.

E é neste exemplo do que tristemente transmitimos que eles se perdem e procuram por si só as referências que lhes faltam. Quando são pequenos ainda esperneiam, fazem birras e confrontam-nos, procurando despertar-nos para as suas necessidades, para o exemplo que devemos ser.

Mas mais tarde, quando entram na adolescência ficam mudos e perdem qualquer conexão. Procuramo-los mas nos seus olhares encontramos vultos que não conhecemos, pois mal os vimos crescer e na nossa falta assumiram outras referências para a vida. Desesperamos porque se diluem em ações impensadas e incongruentes. Mas onde esteve a nossa consciência, a nossa congruência enquanto cresciam? Acusamo-los de não fazerem uso dos valores que lhes passámos. Mas em que momento lhes exemplificámos os homens e mulheres que vislumbrámos que fossem.

É no exemplo – sempre no exemplo – que a educação se materializa e o amor se fortalece. É no que efectivamente vivemos e somos que as nossas crianças vão beber os valores, comportamentos e orientações.
É nas intenções que definimos para nós enquanto pais e pelas quais solene e genuinamente nos responsabilizamos que se reflectem os filhos que idealizamos ter, não sempre, mas quando menos esperamos.

Depressão de domingo à noite. Também a sentes?

depressão

 

Não é que se queira, muito pelo contrário, mas se há dias que sentimos fugirem-nos por entre os dedos, como areia que se aperta na mão, esses dias são o sábado e o domingo.

Se à sexta-feira sentimos aumentar a euforia que antecipa todo o descanso a que nos vamos permitir e os planos que pretendemos desfrutar nas próximas 48 horas, quando se chega ao domingo tendencialmente envolve-nos num misto de depressão e ansiedade. Invade-nos uma angústia e começa a assomar-se uma espécie de corrida contra o tempo que, obviamente, perdemos.

Feito o quadro genérico, não será por acaso que uma percentagem elevada de ataques cardíacos aconteça na noite domingo ou na segunda-feira de manhã. Um estudo do Minnesota State Hospital (de 1969) revelava que ao domingo algumas pessoas apresentam níveis de falta de entusiasmo semelhantes à de pacientes com depressão.

A culpa, no entanto, não é do fim-de-semana, mas sim da eminência da segunda-feira. Malogrado dia que inicia mais uma jornada de cinco dias de trabalho (na generalidade do casos)!

A antecipação que nos faz sobrecarregar a mente com a expectativa do trabalho que nos espera e simultaneamente com o tempo que se julga não se ter aproveitado condignamente, não nos permite carregar no botão de STOP e apreciar as restantes horas do fim-de-semana que deveriam ser dedicadas ao ócio criativo – aquele tempo em que nos perdemos em atividades que nos fazem sair do piloto automático, esvaziar a mente e reorganizarmo-nos mentalmente.

Este ócio de que falo não é o de ficar sentado no sofá a fazer zapping com o comando de TV na mão, numa espécie de alienação. O que se pretende e parece ser o necessário para ultrapassar a sensação de frustração que nos assola ao domingo e que se funde com alguma concepção de desperdício de tempo e culpabilidade por não se ter feito o que se gostaria ou deveria, é aproveitar o tempo de descanso para estimular a mente, lendo aquele livro oferecido há meses ou aquele CD de música que nunca temos tempo para apreciar. Devemos ainda procurar reconectarmo-nos com o nosso equilíbrio vital fazendo exercício físico ou um passeio de lazer na natureza ou mesmo em espaços culturais do nosso interesse.

O espaço para cultivar afetos familiares, amorosos ou entre amigos é igualmente uma boa solução para contornar a depressão de domingo à noite. A gripe que nos visitou neste fim-de-semana não deixou as pequenas tranquilas para se fazer grandes programas fora de casa, mas há sempre um bolo caseiro que se pode fazer em família, bons livros para ler, jogos que as crianças adoram e mil e um desenhos para desenhar e pintar.

Para pararmos de nos ‘pre-ocupar’ com as obrigações da segunda-feira que se avizinha, que tal guardarmos alguns minutos para escrever numa agenda ou caderno as situações que nos estão a inquietar e planear o que é necessário fazermos para que a semana corra de feição? Escritos os problemas e perspetivadas as soluções que estão ao nosso alcance controlarmos já nos podemos ocupar em usufruir do restante tempo de fim-de-semana com outra paz de espírito, baterias efetivamente carregadas e motivação para enfrentar uma nova semana de desafios.

Se nenhuma destas dicas resultar, talvez no próximo fim-de-semana se deva aproveitar para fazer uma análise do que nos insatisfaz na nossa vida e nos rouba tanta energia, inclusive em dias que deveriam servir para nos energizar. E, em vez de utilizarmos essa análise para nos lamuriarmos do quão má a vida é, talvez possamos avaliar as decisões necessárias e dar o primeiro de todos os passos que nos farão realmente sentir felizes e realizados.

O inestimável valor de cada pessoa

De manhã bebia um café num quiosque junto à entrada do metro, antes de seguir para um novo dia de trabalho. Enquanto isso a rapariga da caixa ajeitava uma série de notas de 10 euros. Demorou-se numa. Queixou-se que o cliente lhe tinha entregue a nota amarrotada e que era uma chatice porque não ficava direita como as outras. Disse-lhe tão simplesmente:
– Vale tanto como qualquer uma das outras que tem na mão.
Valeu-me o reparo um breve sorriso do outro lado, o qual retribui.

Este episódio recordou-me de imediato uma história que li, em tempos, algures online, acerca de um professor espanhol que procurou ensinar aos seus alunos o valor inestimável que tem qualquer vida humana, no caso, por ocasião do Dia Mundial de Combate ao Bullying.
No seu Instagram relatou assim o momento:

Hoje disse aos meus alunos: “Quem quer esta nota?” E todos a queriam.
Depois, amarrotei-a, atirei-a ao chão, pisei-a e disse-lhe que era inútil, que não valia nada e que me dava pena vê-la. Voltei-lhes a perguntar se a queriam e todos diziam que sim.
Então expliquei-lhes que esta nota era cada um deles. E que quando se insultam, menosprezam, e se tratam mal, jamais perdem o valor que de verdade têm, tal como a nota de 50 euros, mesmo que a pise e a amarrote.
A ideia não é minha, mas surpreendi-os com uma reflexão tão simples como vital no seu crescimento. Que nunca permitam que nada os faça sentir menos que nada.

O bullying é de facto uma realidade para a qual importa estar alerta e intervir, idealmente de forma preventiva, educando crianças desde a mais tenra idade para a bondade e a empatia e estimulando ao longo do seu crescimento essas atitudes. Mas não é só de bullying que esta história fala, embora seja perfeitamente aplicável. Esta lição também fala de autoestima, de compaixão e de autocompaixão.

Será consensual para todos que, independentemente dos bolsos por onde andaram, do quanto foram amassadas ou dobradas, de todas as vezes que foram parar ao chão e regressaram às carteiras, do seu aspeto, das suas manchas ou rugas, tanto a nota do quiosque como a nota do professor espanhol não perderam em nenhum momento o seu valor. Nesse caso, porque é que então nós, quando confrontados com nossos semelhantes, que tal como estas notas passaram momentos difíceis que lhes deixaram marcas, passamos a julgar inferior o seu valor?
Às notas não perguntamos por onde andaram para chegarem àquele estado nem que circunstâncias lhes provocaram aquelas mazelas. Aceitamo-las simplesmente porque não questionamos o seu valor. Já a quem até nós chega, acanhado, sujo ou mal tratado pela vida, não raras vezes ‘adivinhamos’ a sua história, julgamo-los pela sua aparência e não pelo seu valor intrínseco, esse sempre igual, imensurável.

E não é apenas o valor dos outros que tendemos a inferiorizar. Essa crueldade cometemos muitas vezes connosco próprios. Em momentos vários, como quando não conseguimos atingir um determinado objetivo e somos chamados à atenção, quando nos esforçamos mas ainda assim não somos selecionados para aquele lugar que tanto queríamos, quando somos achincalhados ou humilhados sem perceber porquê,… (só para dar alguns exemplos). Facilmente nos recriminamos, nos julgamos e colocamos em causa o nosso valor. Vitimizamo-nos, entramos em autocomiseração e perdemos o rumo. Parece que deixamos de saber quem somos, o que valemos. Não aceitamos que o nosso melhor é também construído pelas derrotas e adversidades por que passamos, alimentado pelas quedas e recuos e irrigado pelas lágrimas que devemos digna e humildemente deixar correr.

Não importa a forma como nos apresentamos em frente ao espelho ou diante de outros. Devemos ter sempre presente que o nosso valor é único e inestimável.