Uma mente que transborda de certezas não tem espaço para aprender

Chá

 

Certo dia, um homem arrogante procurou um grande mestre com o objetivo de lhe fazer algumas perguntas sobre diversas questões da vida humana.

Logo no início da conversa o homem mostrou-se incapaz de escutar e muito pouco motivado a aprender. Interrompia constantemente o mestre para exibir as suas opiniões sobre todos os assuntos. Tinhas mais certezas do que dúvidas.

De repente o mestre perguntou-lhe:

– Aceita chá?

– Sim, obrigado!

O mestre foi preparar o chá e deixou o homem à espera.

Regressado, serviu o chá, enchendo a chávena até transbordar, como se estivesse distraído. O chá transbordou para o pires, depois para a mesa e, por fim, para o chão.

Surpreendido, o homem olhou para o chá e para a expressão sorridente do mestre. Nem sabia o que dizer. Mas, a determinado momento sentiu-se forçado a falar:

– Não vê que a chávena está cheia?! Não pode levar mais chá!

Então, num tom de voz sereno, o mestre disse:

– É assim que a sua mente se encontra. Está cheia de conhecimentos inúteis, opiniões e preconceitos, sem qualquer espaço para receber novas ideias.

O homem ficou irritado com estas palavras. Mas o mestre acrescentou:

Se quiser saber mais precisa de esvaziar a mente das ideias que impedem a sua aprendizagem. De outro modo, nada posso ensinar-lhe. Só os humildes conseguem escutar e aprender.

 O conto da ‘Chávena de Chá’ desafia-nos a confrontarmo-nos com as nossas certezas, opiniões e preconceitos que tendemos a acumular ao longo da vida e que em certa medida bloqueiam o acesso a novos caminhos de aprendizagem e de desenvolvimento pessoal.

Tal como acontece com a chávena que uma vez cheia não permite levar mais chá, também com o passar dos anos a nossa mente fica repleta de crenças e informações que, naturalmente, se podem tornar equivocadas, desatualizadas ou desajustadas face às mudanças e novos contextos que a vida sempre nos traz.

Rever os conteúdos, questionar as certezas e fazer a devida triagem do que nos serve a cada momento e nos permite evoluir e adaptarmo-nos de forma eficaz e harmoniosa aos desafios com que lidamos, é essencial para abrirmos espaço para novos conteúdos de conhecimento e novas possibilidades de ser.

Por toda a vida será bom lembrarmo-nos que…

Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.    

– Paulo Freire

 

Fazer da gratidão um ritual diário

Ser grato

 

Onde existe gratidão não há espaço para queixume, reclamações e/ou mediocridades. A gratidão é uma das bases para uma vida plena e feliz.

O ser grato pelo que a vida nos dá direciona-nos o foco para o que nela há de positivo, aligeirando os dores, problemas e dificuldades que, mantendo-nos em modo ‘sobrevivência’, tendemos a ruminar e, assim, fazer crescer em nós.

Não é que o que existe de negativo deixe de existir, mas se lhe tiramos o foco, enfraquece, porque deixa de ser alimentado pela nossa atenção.

Com a prática e o hábito, a gratidão a que dirigimos a nossa atenção passa a alimentar o nosso otimismo, a perseverança e a resiliência perante as adversidades, ao mesmo tempo que nos torna mais recetivos a descobrir novos caminhos e possibilidades, a explorar a nossa criatividade na resolução dos problemas e confiar nas nossas capacidades e tudo o mais que só ao futuro pertence.

Como sabemos que o estado de gratidão não é algo inato e que, por isso mesmo, requer treino, por casa, além de semanalmente, fazermos os reconhecimentos e agradecimentos a cada membro na reunião de família, passámos também a, diariamente, partilhar algo pelo qual somos gratos nesse dia.

Podemos agradecer pelas coisas mais simples – como ter estado sol e por isso pudemos brincar no parque, ter encontrado um amigo, um abraço que recebemos, um sorriso, uma comida, um gesto generoso… – ou algo diferente e marcante que tenha acontecido – como ter tido uma boa nota, ter participado num evento especial, ter aprendido algo novo, ter conquistado alguma coisa,…

À primeira vista pode parecer fácil agradecer, mas o que constatámos – pelos menos os adultos de casa – é que não é tão fácil assim, pelo menos no início.

Dizemos ‘Sou grata por…’ e o que se segue é ‘hummmmm…’.

Se não estamos habituados a pensar no que reconhecemos de bom na nossa vida, temos mesmo de pensar um bocadinho. Já para as mais pequenas, este processo parece ser bem mais fácil. Estou em crer que o olhar delas está menos turvado à gratidão do que o nosso.

O nosso ritual ‘Sou grato por…’ antecede o beijo de ‘Boa noite’ e embala-nos com boas energias para uma noite de descanso e reparação.

Deixamo-vos esta ideia como desafio. Experimentem. Alimentem a vossa alma de gratidão. Dirijam a vossa atenção para o que é positivo e vos faz sentir bem. Façam-no também com as vossas crianças. Irão surpreender-se com as respostas delas.

Afinal, não são as pessoas felizes que são gratas. São as pessoas gratas que são felizes. E ser grato é uma habilidade que também se treina.

Ser ou não ser Pai, eis a questão!

Ser Pai

 

Vejo a missão de SER pai como uma experiência de vida linda, desafiadora, transformadora e de constante aprendizagem. No universo masculino nem sempre foi assim (felizmente, há ventos de mudança). SER pai pode ser uma questão bem ao estilo de William Shakespeare:

Ser ou não ser Pai? O que é de facto SER pai? Ou que pai queremos SER?

Creio que estas devem ser ‘as’ questões para quem já é pai ou está a planear sê-lo.

Na minha opinião, e apesar da luta pela equidade parental, ainda subsiste a crença que entende o papel do pai como ‘acessório’ para o desenvolvimento da criança, de tal forma está instituída a força materna neste campo. Na verdade, parece achar-se que a relevância do pai assume-se apenas em determinados momentos, os lúdicos ou aqueles em que se torna necessária a presença da figura paterna através do poder da autoridade que imana ou pela segurança que transmite, ambas resultantes da “força” da sua presença. Não será por acaso ou sequer estranho ouvirmos crianças debaterem-se sobre qual tem o melhor pai sob o argumento de que “o meu pai é mais forte do que o teu”, como se fosse esse o barómetro da masculinidade da figura ou o sentido da paternidade na vida de um filho.

No entanto, o mais importante para a criança não é medido pela força da figura paternal, mas sim pela qualidade do SER pai, pelos laços que se constroem todos os dias, através da presença a cada momento. É aí que de facto reside o cerne da questão.

SER pai é SER integralmente presente, envolver-se e acompanhar o desenvolvimento e crescimento dos filhos, participando nas várias etapas e atividades da criança, ciente que de que trata, não de uma obrigatoriedade associada ao nascimento da criança, mas de um privilégio.

SER pai é não se alhear ou guardar o papel para quando dá jeito ou nos ‘chega a mostarda ao nariz’, mas ver a educação de um filho como uma missão conjunta entre aqueles que tanto o amam, preparando-o para o futuro, para que consiga desenvolver um sentido crítico suficientemente resiliente para perseverar na vida, sem se deixar levar pelas perspectivas superficiais que todos os dias nos entram pela porta dentro, de tão facilitado que se tornou o acesso à informação.

É também por ter construído esta perspetiva do que é SER Pai nos dias de hoje que não me revejo nas premissas da educação parental tradicional – se fizeres o bem serás recompensado e se fizeres o mal serás punido. Na minha opinião até é uma abordagem que até poderia resultar, se estivesse permanentemente presente. Mas, como sei que não fui abençoado com o dom da omnipresença, acabo por ter as minhas dúvidas, de tal forma que me levam a questionar:

E quando não estiver presente? Que influência terei como pai? Que poder terá a educação que lhes dou?

Terão as minhas filhas a capacidade de olhar para dentro e escolher fazer o correto ou limitam-se a olhar em redor e aceitar o fruto proibido porque ninguém está a ver e acreditam que ninguém irá saber?

Quero educar as minhas filhas de forma a que desenvolvam a autoconsciência como uma das principais práticas para se guiarem na vida, tal como no exemplo do conto do monge que vivia num mosteiro em ruinas que me faz tanto sentido.

Acredito que o pai que escolho SER fará a diferença nas respostas que elas irão dar aos desafios que tiverem na vida. E é por isso que SER pai é a grande questão da minha vida.