O poder de educar para a autoconsciência

 

Um monge vivia num mosteiro em ruínas, na companhia de um grupo de discípulos. Um dia, disse-lhes:

Como sabem precisamos de dinheiro para recuperar o mosteiro e para nosso sustento. Eu estive a pensar numa solução simples.

E qual é essa solução?

Vão à cidade mais próxima e roubem os bens que podem ser vendidos. Assim arranjaremos dinheiro para todas a nossas necessidades.

Todos ficaram espantados com esta sugestão do monge, que era considerado um homem sábio e justo. Ele continuou:

Eu sei que os roubos podem manchar a nossa excelente reputação e trazer-nos a desgraça. Por isso, ninguém pode ver-vos a roubar. Não se deixem apanhar em flagrante!

Os discípulos discutiram o plano. Reconstruir o mosteiro seria uma boa causa? Roubar para comer seria legítimo? E se fossem apanhados a roubar, que aconteceria? As opiniões dividiram-se.

Quando a maioria já tinha concordado em partir para a cidade, o discípulo mais novo levantou a voz:

Eu não vou!

Porque não queres ir com os teus companheiros? – perguntou-lhe o monge, surpreendido.

O seu plano é impossível de realizar. Eu não posso roubar sem ser visto. Não importa aonde vou ou o que faço. Em qualquer lugar, mesmo que ninguém me observe, a minha consciência vê sempre tudo o que eu estou a fazer.

Ao escutar esta explicação, o rosto do monge iluminou-se de alegria. Abraçou o discípulo e declarou:

Estou muito satisfeito contigo, porque compreendeste as minhas palavras e foste capaz de manter a tua integridade.

 

Sei que não estarei sempre por perto para controlar o comportamento das minhas filhas. E, como diriam os meus pais (e bem), “a cama que fizeres é aquela em que te deitas”. Então, cabe a cada um e mais ninguém a responsabilidade de fazer e lidar com as suas escolhas, boas ou más.

Confesso que nem sempre esta consciência me afectou assim tanto. Lembro-me de uma ocasião em que a B era bem pequena e num hipermercado pegou num peluche. Na correria para fazer compras, pagar e ir para casa já só reparámos no bendito boneco que ela trazia nos braços a caminho de casa.

Na ocasião pensei: “Olha, que se lixe. Veio, veio“.

Recentemente estávamos a sair de uma loja de desporto. Entrámos para o carro e reparei que a L trazia uma bola de ténis de mesa da mão.

Ainda pensei: “Isto também não vale nada“, mas logo a minha consciência me recordou:

Que exemplo estás a dar? Ninguém reparou, mas tu sabes que não é teu. Não é da tua filha.

Então olhei para ela e disse:

– Dás a bola à mamã? Sabes, ela não é nossa. Não a pagámos. Temos de a ir devolver.

Ela deu-me a bolinha e eu regressei à loja e entreguei a um funcionário explicando que a minha filha a tinha levado sem pagar e pedi desculpas pelo incómodo.

De volta ao carro, olhando para o Nuno, percebi que ambos estávamos certos do exemplo que queremos ser para elas e dos valores que nos norteiam como família. Nem todos os dias foram assim. Mas hoje são-o cada vez mais e sou grata por isso e por todo o esforço que fazemos para termos cada vez mais presente e consciente a nossa intenção enquanto pais, a porta que escolhemos.

Esta história do monge, retirada do livro ’99 Histórias de Sabedoria’, de António Estanqueiro (Editorial Presença), leio-a com recorrência à B. Refiro-me às vezes a este conto em situações em que ela por algum motivo tenta dissimular, mentir, levar vantagem. Pergunto-lhe:

– Lembras-te do monge que mandou os alunos irem roubar? O que disse o mais novo? Lembra-te que até me podes enganar mas convives bem com isso? Achas mesmo que é a mim que me prejudicas?

Por norma acabamos a falar do que a faz ter a atitude inadequada e tentar encontrar melhores soluções para resolver o seu problema sem ter de mentir, enganar, dissimular,…

Emocionário – o dicionário das emoções

Identificar as emoções que sentimos é premissa base para que daí se aprenda a gerir o que se sente, permitindo-nos ter um maior controlo sobre as respostas que somos desafiados a dar nas mais variadas situações da nossa vida. Sem esta consciência dificilmente conseguimos ter algum domínio sobre o que de desencadeia em nós e que nos leva a ter reações nem sempre adequadas face ao que acontece.

A capacidade de nos autorregularmos, tão importante na vida, pressupõe assim que se saiba reconhecer e nomear as emoções que existem em nós, algo que podemos e devemos ensinar às crianças desde cedo.

A crianças com cerca de três anos já lhes podemos falar sobre a raiva, a vergonha, o medo e a alegria. À medida que crescem podemos explorar emoções mais complexas como o tédio, o ciúme, a culpa, a timidez, o orgulho, a gratidão, entre tantas outras.

Este é um livro para ir consultando sempre que sentirmos necessidade de aprofundar ou explicar uma emoção para que a criança a compreenda melhor e consiga lidar melhor com ela. Utiliza-se tal como um dicionário onde procuramos a definição e aplicação de determinada palavra.

Por vezes em casa pegamos nele só por graça, para aproveitarmos aqueles momento de ócio, educando para as emoções de uma forma leve e divertida.

Noutras situações recorremos a ele quando alguma situação propicia uma conversa sobre determinada emoção, explorando um contexto em que ela tenha surgido.

Sinopse

Até onde consegues chegar com as tuas asas? As asas dos pássaros têm penas. As asas das pessoas têm palavras. Mas nem todas as palavras te ajudam a elevares-te. Só as palavras que expressam claramente como te sentes aumentam as tuas possibilidades de voar.
O “Emocionário” é um dicionário de emoções que te impulsionará para um voo muito especial… E vais ver que nunca mais quererás deixar de bater as asas.

Editado em Portugal por: Texto Editora

Autores: Cristina Núñez Pereira e Rafael R. Valcárcel

Boas leituras!

Só quem se cuida é capaz de cuidar

Cuidar de nós

“Caramba! É que nem tenho tempo nem para me coçar!”

“Gostava de ter tempo para cuidar de mim mas com a casa, a família e o trabalho… não há como.”

“No próximo mês vou começar a ir ao ginásio. É que preciso mesmo!” (e passa um mês, dois, três… um ano!…

“Amiga, tomamos um café para a semana para pôr a conversa em dia?” (e as semanas vão passando, passando…)

“Faço tudo por ti, sacrifico-me tanto, e tu nem me agradeces!”

Creio que estas frases, entre outras que tais, serão familiares à maioria de nós, ou porque já as dissemos ou porque as ouvimos muitas vezes…

A verdade é que ser pai ou mãe nos dias que correm não é pêra doce e requer muito jogo de cintura. Ele é a azáfama da casa a acumular com muitas horas de trabalho, os compromissos sociais e familiares, as responsabilidades e exigências, passando pelas burocracias, as contas, as tarefas e obrigações do dia-a-dia, aos imprevistos que sempre aparecem (imagine-se) nas alturas menos oportunas, e o tanto mais que aqui se pode juntar no rol dos itens que não cabem nas 24 horas do dia.

No meio de tudo isto é tão fácil esmifrarmo-nos até à última gota, achando que podemos sempre um pouco mais, que aguentamos.

Em nossa defesa – de quem, na verdade, muito pouco se defende – vemo-nos como altruístas. Sofremos mas fazêmo-lo pelos nossos! Os nossos filhos, a nossa família. Por todos aqueles que amamos, que contam connosco e/ou precisam de nós.

Mas que consequências nos traz essa entrega sem limites, desregrada, que tantas vezes nos deixa esgotados física e emocionalmente?

Ao entrarmos nesta espiral de sacrifício e doação contínua, esticando ao máximo as nossas capacidades, há sempre uma altura em que acabamos por ceder. Afinal, somos de carne e não de ferro (e atenção que até o ferro enferruja). Há-de haver uma altura em que começamos a dar mostras de desgaste, e não raras vezes acabamos por adoecer ou, então, exteriorizamos o que já não cabe em nós com reações inadequadas. A irritabilidade e os ressentimentos começam a ganhar espaço, moldando a forma como reagimos. Quando a pressão se acentua é exatamente sobre aqueles por quem entendemos que nos sacrificamos que tendemos a descarregar a pressão, como se de alguma forma fosse deles a responsabilidade de zelarem pelo desmazelo de não cuidarmos de nós.

Quem já andou de avião sabe que antes de se iniciar a viagem a hospedeira faz sempre uma introdução às regras de segurança e ao que fazer em caso de emergência. Numa das indicações informa que em caso de despressurização da cabine, as máscaras de oxigénio cairão automaticamente. Nesse caso, se estiver acompanhado por alguém que necessite do seu apoio, como crianças, deverá ser o primeiro a colocar a máscara e só depois deve ajudar quem necessitar do apoio.

Esta regra não é apenas válida para as viagens de avião. Na verdade, (naturalmente, de forma figurativa) garante também a nossa segurança e bem-estar na vida e torna mais saudáveis as relações.

Não será possível cuidarmos eficientemente de ninguém se antes de mais não cuidarmos de nós mesmos. O nosso auto-cuidado deve estar em primeiro lugar e isto não é ser egoísta, nem estarmos a negligenciar ninguém, mas sim ser sensato e responsável. Antes de mais, temos de assumir que a responsabilidade de nos cuidarmos é nossa e de ninguém mais.

Ao reclamarmos da falta deste cuidado pelo quanto nos dedicamos a filhos, família, ou outro alguém de quem cuidamos, estamos a atribuir ao outro a responsabilidade pelo nosso bem-estar, o que é não só demasiado pesado e injusto para o outro, mas também configura uma auto-percepção de incapacidade para mudar o que não nos satisfaz.

Basicamente se atribuímos a responsabilidade a outro pela opção que nós não tomamos, é como se lhe disséssemos: “eu estou assim por tua culpa”. A culpa raramente tem efeitos positivos e é altamente corrosiva para os relacionamentos.

A este nível, a psicologia adleriana fala sobre o conceito de ‘separação de tarefas’. Quando culpamos o outro por uma responsabilidade que é nossa não estamos a fazer a devida distinção entre as tarefas que nos cabem a nós e as que cabem aos outros. Desta não distinção surge a nossa desresponsabilização e culpabilização do outro, e daqui só pode advir sofrimento.

Contudo, se eu assumo a responsabilidade do que não estou a fazer por mim, então também assumo a opção de mudar a realidade em que me encontro e não me agrada. Passo da atitude passiva a uma atitude ativa. Podem acreditar que isto faz toda a diferença na forma como conduzimos as nossas vidas.

Ao promovermos o auto-cuidado não só estamos a garantir o nosso bem-estar e equilíbrio físico e emocional, mas também estamos então mais aptos a cuidar das pessoas que de nós dependem ou com quem nos relacionamos e oferecemos os nossos préstimos. Outra vantagem também muito importante – mais então se falamos de crianças – é o exemplo que passamos, mostrando a importância de não negligenciarmos as nossas próprias necessidades e limites e de nos cuidarmos para melhor cuidarmos dos que precisam de nós.